A máxima de que Luanda não está preparada para as chuvas mantém-se viva e agrava-se cada vez que as chuvas se abatem sobre o município de Belas, e não só. O impacto das chuvas na vida das famílias contrasta com a ausência de medidas eficazes, que atenuem o cenário de danos e mortes deixado pelas enxurradas.
A falta de um plano integrado para responder ao impacto das chuvas em Luanda agrava os danos provocados na capital, sempre que chove, com realce para o número de mortes, que só este ano ascende a 22.
Segundo o que foi revelado pelo jornal Expansão, as acções que têm sido implementadas vão a reboque das ocorrências, e não são preventivas, com excepção da limpeza de algumas valas de drenagem, mas que ainda assim não são capazes de escoar as águas a ponto de evitar os inúmeros prejuízos causados aos moradores.
“Tudo o que está a ser feito é em função do que acontece. Não conheço nenhum plano integrado do governo de Luanda, nem da protecção civil, que, de facto, minimize os problemas que acontecem sempre que chove”, disse uma fonte governamental.
Segundo o interlocutor, apesar dos vários pronunciamentos oficiais, a verdade é que a falta de um plano integrado condiciona o sucesso de qualquer trabalho feito após as enxurradas.
“Sem este plano integrado vamos continuar a ter mortes e destruição de habitações e não só. O governo de Luanda actua como um bombeiro, tentando acudir os gritos de socorro. Actuação semelhante tem a protecção civil, que depois aparece com os tradicionais balanços dos danos, sem apresentar qualquer medida que possa melhorar a situação”, salientou a fonte do Expansão.
Além da falta de um plano integrado, a descoordenação de acções entre o governo central e o provincial também agrava a situação, já que existem na capital obras inacabadas, que “se tornam verdadeiras sepulturas”.
“Agora, sempre que chove, temos mortes no Belas. Em Viana a mesma coisa, devido à vala no Zango. Temos verdadeiras sepulturas a céu aberto. Há ainda as constantes enchentes no Zango Zero que danificam até transformadores de energia. E ainda existem outros casos. E tudo isso, porque o trabalho não é feito conjuntamente e até parece que o governo central e o governo provincial são adversários”, aponta.
Para agravar a situação, as administrações locais não têm meios, nem recursos para responder aos pedidos de socorro sempre que “São Pedro abre as torneiras”.
“Assim, é impossível. É necessário que haja maior comprometimento, a começar pela elaboração de um plano integrado para Luanda e não ficar à espera da Comissão Nacional de Protecção Civil, que também pouco ou nada vai fazer. A questão é local e o governo de Manuel Homem tem de ser capaz de assumir este desafio, que já não é novo”, disse sob anonimato um administrador.
Enquanto isso, as mortes e os danos somam e seguem. Só este ano, em Luanda, já morreram pelo menos 22 pessoas em consequência das chuvas, 50 habitações foram destruídas e 12 mil ficaram inundadas, afectando mais de 7 mil famílias.
O Expansão questionou o Governo Provincial de Luanda e a Comissão Provincial de Protecção Civil sobre a ausência de um plano integrado, o valor estimado dos danos e acções concretas para minimizar os efeitos das chuvas, e não obteve resposta até ao fecho da edição, quarta-feira, 26.
Em oito meses morreram 332 pessoas no País
Segundo dados oficiais, pelo menos 332 pessoas morreram em consequência das chuvas nos últimos oito meses no País e 649 ficaram feridas.
De acordo com a Comissão Multissetorial de Protecção Civil, entre 15 de Agosto de 2022 a Abril desde ano, as chuvas danificaram 4.292 residências, destruíram 3.827 e inundaram 1.741, afectando 18.860 famílias. Estes números podem ser maiores, já que é oficialmente reconhecida a dificuldade de acesso a todas as zonas afectadas.
Perante a situação, as autoridades garantem estar em curso um plano emergencial, cujo conteúdo não foi divulgado.
“O plano emergencial consiste na acção de respostas que precisam de ser consolidadas para apoiar as populações afectadas. Este plano prevê também medidas a aplicar, a curto, médio e longo prazo”, afirmou Manuel Lutango, membro do secretariado executivo da Comissão Nacional de Protecção Civil, no final de uma reunião realizada segunda-feira, em Luanda.
